sexta-feira, 17 de maio de 2013

Pedro: morre mais um revolucionário

Pedro era um menino muito hiperativo. Pedro adorava correr, se esconder, gritar, sorrir, implicar. Pedro sabia como realmente viver, apesar da pouca idade. Todos sempre diziam que Pedro era inquieto demais, mas ele nunca ligou, desde cedo aprendera com seu pai que a liberdade é rara e a infância não durava pra sempre. Pedro sempre foi taxado como esquisito por sua inquietação, pois ela não afetava apenas o corpo, mas também a mente. Sua professora sempre dizia que ele perguntava de mais e que isso era feio! Sua mãe ja estava acostumada com suas perguntas, mas com o passar dos anos elas ficaram mais complexas e Pedro, por experiência própria, percebeu que os adultos se irritavam não por que eram muitas perguntas, mas porque eles não sabiam responder. Pedro resolveu criar um caderno de questões, dizia que um dia iria escrever um livro com todas as respostas, porque segundo ele eram "coisas que todos precisavam saber".
E assim surgiram as primeiras: Porque o céu é visível mas intocável? Como se aprende uma nova língua se todas as línguas são velhas? Como fizeram a primeira tradução se não se sabia nada da outra língua? Como as pessoas conseguem dizer que amam seus deuses que não vêem, mas não amam aqueles que visivelmente necessitam de amor? Porque todos têm medo de mendigos quando na verdade deviam ter compaixão? Porque os rios correm? Um árvore morre de velhice ou só por maus tratos? Se é opção sexual porque muitos dizem que não escolheram o que sentem? Porque tanto medo da morte se ninguém sabe o que vem depois?
As perguntas de Pedro eram infinitamente grandes, sua criatividade e curiosidade não tinham limites. Um dia elas chegaram ao fim. Pedro nunca recebeu apoio pra perguntar, sempre o mandaram parar, sempre quiseram que ele não as fizesse e esse dia chegou. Pedro cresceu. Hoje Pedro tem 25 anos e vive como técnico em informática. Toda sua expectativa de mundo, toda sua visão lhe foram tirada ao longo dos anos. Pedro nunca entendeu, mas sempre o matavam a cada dia que passava, sempre lhe afogavam na mesmice a cada segundo.Pedro só vive tentando ser feliz com seu medo de morrer. O caderno de Pedro foi pro lixo junto com toda sua inquietação. Morre mais um revolucionário!

terça-feira, 30 de abril de 2013

um trenzinho, uma choupana

Fazia frio, eu estava quase congelando, meu lábios já estavam roxos e meu queixo não parava de bater. Era inverno, a baixa temperatura era justificável, mas a olho nu minha atitude não parecia plausível: nadar em um lago congelado quando se está num inverno com média de -15°C. Mas eu precisava fazer aquilo, era minha última chance, tinha que recuperar meu trenzinho!
Eu não sou maluco, deixe-me lhe explicar. Eu tinha um trenzinho e uma dia ele caiu no lago, pensei em depois pegar, mas o tempo foi mais rápido que eu. Antes que a sístole virasse diástole o lago congelou. Eu corri, chorei, gritei, mas não adiantou, meu trenzinho foi se embora. De repente senti meu mundo girar e meu coração parar, estava preso num frio mortal, o jeito era aproveitar a choupana velha e me abrigar antes que fosse apresentado a morte.
Vivi lá por muitos anos, sonhei com o dia em que meu trenzinho voltasse pros meus braços. Era tarde, o cruel calor já me envolvia fortemente, precisaria mais do que simples vontade pra sair. Aos poucos, sem perceber, o calor que a choupana produzia, me envolvia mais que o de costume. Eu já não era mais eu mesmo, mas a coisa que a choupana criara em mim.
 Tudo seguia no mais perfeita hipinose  até que um dia eu me queimei, me queimei de verdade. O calor da choupana já me ferira outras vezes, mas dessa vez a queimadura foi maior, eu senti o estalo das correntes, eu senti que a liberdade estava próxima!
Corri com todas as minhas forças. A choupana me gritava, dizia que eu não conseguiria viver sem ela, mas eu precisava mostrar pra mim mesmo que o trenzinho era valioso demais pra deixar o tempo congela-lo. Me abriguei na mata e me alimentei de insetos presos a relva congelada. Caminhei sem destino até que cheguei a boca do lago. Não tinha plena certeza, com tanto frio já havia perdido todos os sentidos, mas algo me chamava naquele momento e eu sentia que era o trenzinho. Ele nunca me esquecera, sempre esteve a minha espera porque sabia que no fim das contas eu voltaria pra busca-lo, ele estava mais que certo!
Ante ao lago, o que tenho em mente é apenas pular, só estou a espera de que a última lacraia congelada que comi vire energia em meu corpo, para que possa resistir ao gelo cortante. Saltei, com os olhos abertos, eu o via me chamar ao fundo, eu sentia que o coração do trenzinho pulsava mais rápido ao me ver chegar. Mas não posso negar que também sentia que meus pulmões já quase paravam, que meu cérebro estava a gritar por clemência e o que me mantinha vivo naquele momento era a alegria em meu coração.
Encarei a dureza do gelo e fui mais fundo. Sentia que minhas pernas não me obedeciam mais e que meus braços quase já estavam a beira do fim, mais um pouco de esforço e eu alcançaria o meu amado trenzinho. Fui. O toquei e senti como se o tempo parasse, como se naquele momento nada mais existisse, vi meus olhos brilharem de alegria e senti que naquele momento já não estava mais em mim, que agora a choupana não mais me amedrontava e que o trenzinho era parte do que eu me tornara.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Asas para Marte

Ainda não entendi qual a razão pra tanta confusão! Eu não fiz nada a não ser voar! Daqui de cima eu só vejo discórdia e umas estranhas pessoas a chorar! Vejo que ao redor do meu corpo eles fazem uma espécia de ritual de aceitação: uns dançam com ódio e outros desfalecem, como se tudo tivesse perdido a razão! Mas parando pra pensar, até que tudo é meio engraçado: Ver o vizinho que me odiava chorar, a amiga da minha mãe que sempre me confundia tristinha e meu meio irmão inconsolado. Mas eu ainda me pergunto, que mal eu fiz?!
Minha vida não tinha nada, era só casa, trabalho e faculdade, morava com meus pais por insistência deles, apesar de eu já ter a maior idade. Outrora, nunca me derem um pingo de atenção, só sabiam me cobrar e perguntar quando iria tomar jeito! Jeito, mas onde eu comprava esse troço pra beber?! Nunca me responderam, só insistiam em dizer: menino, menino, ta crescendo e perdendo o respeito!
O que eu mais gostava daquilo tudo era poder ler Rookmaaker, o cara era um gênio, apesar de ter uma filosofia de vida bem antagônica a minha! Mas ora vejas, já ia me esquecendo de agradecer ao mais celebre, aquele que me fez muitas vezes ter ânimo pra levantar do sofá, meu caro amigo Tim Maia. Algumas muitas vezes me fezcair de amor, mas foi o azul da cor do mar que me fez cair das nuvens e pousar como chumbo no chão. Tim me lembrou qual era o proposito do meu nascimento!
Pois bem, abri as asas e voei, fui de encontro a imensidão, fechei os olhos e flertei com a solidão. Quando os reabri novamente, só via o corre corre ao som de um leve burburinho que suava como 'ele se matou' e ' coitado, morreu tão novinho'. Eu na verdade só quero entender, que mal tem em voar, se tenho asas na cabeça tenho direito de, no céu, bailar...
Só quero saber onde compro um lindo e gelado mate, porque agora que ja voei, estou pronto pra partir rumo a marte!