terça-feira, 30 de abril de 2013

um trenzinho, uma choupana

Fazia frio, eu estava quase congelando, meu lábios já estavam roxos e meu queixo não parava de bater. Era inverno, a baixa temperatura era justificável, mas a olho nu minha atitude não parecia plausível: nadar em um lago congelado quando se está num inverno com média de -15°C. Mas eu precisava fazer aquilo, era minha última chance, tinha que recuperar meu trenzinho!
Eu não sou maluco, deixe-me lhe explicar. Eu tinha um trenzinho e uma dia ele caiu no lago, pensei em depois pegar, mas o tempo foi mais rápido que eu. Antes que a sístole virasse diástole o lago congelou. Eu corri, chorei, gritei, mas não adiantou, meu trenzinho foi se embora. De repente senti meu mundo girar e meu coração parar, estava preso num frio mortal, o jeito era aproveitar a choupana velha e me abrigar antes que fosse apresentado a morte.
Vivi lá por muitos anos, sonhei com o dia em que meu trenzinho voltasse pros meus braços. Era tarde, o cruel calor já me envolvia fortemente, precisaria mais do que simples vontade pra sair. Aos poucos, sem perceber, o calor que a choupana produzia, me envolvia mais que o de costume. Eu já não era mais eu mesmo, mas a coisa que a choupana criara em mim.
 Tudo seguia no mais perfeita hipinose  até que um dia eu me queimei, me queimei de verdade. O calor da choupana já me ferira outras vezes, mas dessa vez a queimadura foi maior, eu senti o estalo das correntes, eu senti que a liberdade estava próxima!
Corri com todas as minhas forças. A choupana me gritava, dizia que eu não conseguiria viver sem ela, mas eu precisava mostrar pra mim mesmo que o trenzinho era valioso demais pra deixar o tempo congela-lo. Me abriguei na mata e me alimentei de insetos presos a relva congelada. Caminhei sem destino até que cheguei a boca do lago. Não tinha plena certeza, com tanto frio já havia perdido todos os sentidos, mas algo me chamava naquele momento e eu sentia que era o trenzinho. Ele nunca me esquecera, sempre esteve a minha espera porque sabia que no fim das contas eu voltaria pra busca-lo, ele estava mais que certo!
Ante ao lago, o que tenho em mente é apenas pular, só estou a espera de que a última lacraia congelada que comi vire energia em meu corpo, para que possa resistir ao gelo cortante. Saltei, com os olhos abertos, eu o via me chamar ao fundo, eu sentia que o coração do trenzinho pulsava mais rápido ao me ver chegar. Mas não posso negar que também sentia que meus pulmões já quase paravam, que meu cérebro estava a gritar por clemência e o que me mantinha vivo naquele momento era a alegria em meu coração.
Encarei a dureza do gelo e fui mais fundo. Sentia que minhas pernas não me obedeciam mais e que meus braços quase já estavam a beira do fim, mais um pouco de esforço e eu alcançaria o meu amado trenzinho. Fui. O toquei e senti como se o tempo parasse, como se naquele momento nada mais existisse, vi meus olhos brilharem de alegria e senti que naquele momento já não estava mais em mim, que agora a choupana não mais me amedrontava e que o trenzinho era parte do que eu me tornara.

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